Bem sei que preparaes correctamente
O aço e a seda, as laminas e o estofo;
Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

Mas isso tudo é falso, é machinal,
Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
Com essa perfeição do fabricado,
Sem o rythmo do vivo e do real!

E cá o santo sol, sobre isso tudo,
Faz conceber as verdes ribanceiras;
Lança as rosaceas bellas e fructeiras
Nas searas de trigo palhagudo!

Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
Londres sombria, em que scintilla a corte!…
Mesmo que tu, que vives a compor-te,
Grande seio arquejante de Paris!…

Ah! Que de gloria, que de colorido,
quando, por meu mandado e meu conselho,
Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

Para alguns são prosaicos, são banaes
Estes versos de fibra succolenta;
Como se a polpa que nos dessedenta
Nem ao menos valesse uns madrigaes!

Pois o que a bocca trava com surprezas
Senão as frutas tónicas e puras!
Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
A graça vegetal das sobremesas!…

Jack, marujo inglez, tu tens razão
Quando, ancorando em portos como os nossos,
As laranjas com cascas e caróços
Comes com bestial soffreguidão!…

* * * * *

A impressão d'outros tempos, sempre viva,
Dá estremeções no meu passado morto,
E inda viajo, muita vez, absorto,
Pelas varzeas da minha retentiva.