Então recordo a paz familiar,
Todo um painel pacifico d'enganos!
E a distancia fatal d'uns poucos annos
É uma lente convexa, d'augmentar.
Todos os typos mortos resuscito!
Perpetuam-se assim alguns minutos!
E eu exagéro os casos diminutos
Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.
Pinto quadros por lettras, por signaes,
Tão luminosos como os do Levante,
Nas horas em que a calma é mais queimante,
Na quadra em que o verão aperta mais.
Como destacam, vivas, certas cores,
Na vida externa cheia d'alegrias!
Horas, vozes, locaes, physionomias,
As ferramentas, os trabalhadores!
Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
E a rama do pinheiro! Eu adivinho
O resinoso, o tão agreste pinho
Serrado nos pinhaes da beira mar.
Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
Sob uma calma espessa e calaceira!
Feias e fortes! Punham-lhes papel,
A forral-as. E em grossa serradura
Acamava-se a uva prematura
Que não deve servir para tonel!
Cingiam-n'as com arcos de castanho
Nas ribeiras cortados, nos riachos;
E eram d'assucar e calor os cachos,
Criados pelo esterco e pelo amanho!
Ó pobre estrume, como tu compões
Estes pampanos doces como afagos!
«Dedos de dama»: transparentes bagos!
«Tetas de cabra»: lacteas carnações!
E não eram caixitas bem dispostas
Como as passas de Malaga e Alicante;
Com sua fórma estavel, ignorante,
Estas pesavam, brutalmente, ás costas!