Nos vinhatorios via fulgurar,
Com tanta cal que torna as vistas cegas,
Os parallelogramos das adegas,
Que têm lá dentro as dornas e o lagar!
Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
Que grande azafama! Apressadamente
Como soava um martellar frequente,
Véspera da saida dos navios!
Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espirito secreto!
Com folhas de saudades um objecto
Deita raizes duras de arrancar!
As navalhas de volta, por exemplo,
Cujo bico de passaro se arqueia,
Forjadas no casebre d'uma aldeia,
São antigas amigas que eu contemplo!
Ellas, em seu labor, em seu lidar,
Com sua ponta como a da podoas,
Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
Nunca tintas de sangue e de matar.
E as enxós de martello, que d'um lado
Cortavam mais do que as enxadas cavam,
Por outro lado, rápidas, pregavam,
D'uma pancada, o prego fasquiado!
O meu animo verga na abstracção,
Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
Mas se de materiaes descubro um veio
Ganho a musculatura d'um Sansão!
E assim—e mais no povo a vida é corna—
Amo os officios como o de ferreiro,
Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
Seu malho retumbante na bigorna!
E sinto, se me ponho a recordar
Tanto utensilio, tantas perspectivas,
As tradições antigas, primitivas,
E a formidavel alma popular!
Oh! Que brava alegria eu tenho quando
Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
Faço um trabalho technico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!