NA GUELLA DO LEÃO

CONDE DE SABUGOSA

NA GUELLA DO LEÃO

LISBOA
TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA
11, Apostolos, 11
MDCCCLXXXVII

Tiragem especial de 45 exemplares em papel Japão

I

[{5}]

uando o leão de purpura dos Silvas perder a sua lingua negra acabará a familia a que vaes pertencer prophetisára o Roque a uma das suas netas, na vespera do casamento, uma noite de luar coado a custo pelas abobadas do espesso arvoredo n'uma das avenidas da quinta de Bellas. O Roque nunca mentira. Nas suas apparições pelo parque ensinava o paradeiro de thesouros escondidos, annunciava o advento de desejados herdeiros, denunciava os culpados que compromettiam com roubos os creados fieis, e diz-se até que consolára alguns corações com indiscretas confidencias. Se era alma penada (e era decerto, pois assim o affirmam auctoridades de que não é licito duvidar)[{6}] a ninguem mettia medo. Sobrinhas e netas chamavam por elle, sem o menor arripio de terror, quando ouviam a sua voz auctorisada, sem estremecerem quando avistavam a barba branca e comprida do velho ministro do sr. D. Pedro II.