Aquella prophecia fôra para a familia dos Silvas, na qual a neta de Roque Monteiro casára, como um threno biblico crédor de toda a fé. E perpetuára-se na tradicção.

Ora n'aquella manhã o leão rompente em campo de prata do escudo esquartellado, fecho do arco em madeira entalhada da capella-mór d'um antigo palacio do bairro de S. Vicente, perdera a lingua negra que o irreverente caruncho amputára. Foi a velha Brigida quem tal descobriu.

Quando fazia as suas orações, depois de ter baixado sobre o lagedo os olhos humilhados perante a divindade, ia levantal-os ao ceu na invocação da Ave Maria; a sua vista porém parou aterrada na contemplação do escudo truncado, e a Ave Maria gelou-se-lhe nos labios. Realisára-se a prophecia do Roque. Ou o sr. D. Carlos o unico representante d'aquella casa ia morrer, ou se preparava a ultima derrocada tão annunciada pelas successivas catastrophes dos ultimos annos.

Levantou-se inquieta e assustada e tão preoccupada ia que, ao passar pela grande casa de espera de ladrilho esburacado, azulejada até á altura de um homem, e de cujo tecto, escurecido pelo tempo, pendia um merencorio lampeão, pegou[{7}] inconscientemente n'um maço de cartas do correio que se achava sobre um dos bancos, unica mobilia do vasto casarão, e com um andar apressado, quanto lh'o permittiam os annos e o rheumatismo, dirigiu-se ao quarto de Carlos.

Este passeava fumando um charuto, de paletot abotoado, e ainda com a gravata branca que atára na vespera. Quando a velha aia que o creára abriu a porta, voltou a cabeça interrogativamente, quebrando o fio da ideia que o preoccupava.

—Quer alguma coisa, Brigida!

Esperando vêl-o na cama, morto talvez, em cumprimento da prophecia, estacou indecisa entre a satisfação de encontrar vivo, e a curiosidade do motivo que áquella hora, 10 da manhã, o tinha ainda levantado. Carlos repetiu a pergunta, e quando ella lhe explicou a causa da sua afflicção, interrompeu-a com um sorriso affectuoso.

—Não se enganou talvez a prophecia, tia Brigida. Não morro eu, mas vende-se esta casa, hoje, em praça. O Roque teve razão mais uma vez.

—Então sempre é certo! Olhe, menino, ou eu me engano muito, ou aqui anda mais alguma pouca vergonha do tal senhor que o anno passado comprou as Torreiras, e que, quando aqui veiu entrou na capella de chapéu na cabeça. Emfim já nada extranho. Desde que, puzeram os frades fóra dos seus conventos não admira que ponham os fidalgos fóra das suas casas. E o menino que tenciona fazer?[{8}]

—Ninguem me põe fóra, Brigida. A casa é vendida como foram vendidas as Torreiras e o resto, para pagar as minhas dividas, e as deixadas por... Você sabe muito bem que quando meu pae morreu...