O ciume é máu conselheiro. Violante escutou-o, e lentamente foi-se-lhe envenenando o animo e foram-se-lhe alterando as particulas de sangue. Mulher que julga castigar uma infidelidade, praticando outra, crava em si propria um punhal, abre uma ferida que raramente cicatriza.
Assim ella, inexperiente e impulsiva, suppondo-se aggravada, deixou-se cortejar por algum dos galantes profissionaes, que enxameavam por esse tempo nos adros das egrejas da moda, ou nos pucaros d’agua e nas merendas das amigas de sua mãe. Loureira (como quem diz coquette, a la moda de então) cahiu na facilidade e ligeireza de que resmunga D. Francisco Manoel de Mello quando diz:
«Mulheres ha leves e gloriosas prezadas do seu parecer loureiras, cuido eu que lhes chamavam nossos antigos, por significar que a qualquer bafo de vento se movião.»
Também um rifão popular diz: «Menina loureira, uva de parreira.» Ora, Violante foi loureira, não por indole mas por despeito. E allegando que o infiel
«Hizo locuras por otra,
Fué fino en las astucias...
cahiu no laço armado pelo seu desespero e, conforme nos declara:
«Mas pensando en los agrabios
Tanto me venció la furia,
Que admitti divertimientos,
Veras amorosas nunca.
Chegaria elle a ter noticia d’estes divertimientos, e resolveria castigal-a pelo silencio?
O caso é que durante cinco annos não deu signal de si. É o que nos revelam as duas quadras das Rythmas que registam este episodio do enygmatico romance da poetiza:
Despues de un lustro d’ausencia,
Despues de tanta fortuna
El que negava respuestas
Me hace agora perguntas.
Matar-me quiere de nuevo
Porque como alfim se occulta
No teme ser homecida
Y mas de vida que es suya.