Adivinha-se, mais que se lê, este pequeno drama de amor. Um biographo, dando largas á imaginação, pretende que ella se deixou envolver tão desastradamente nas malhas da rêde, que ella propria lançára, que afinal confessa a uma amiga «que o tal amante, por divertimiento, tinha feito tanta impressão em sua alma que não sabia decidir-se entre os dois».
Parece-me esticar demais a hermeneutica querer tirar esta conclusão das confusas queixas de Violante.
O que não offerece duvida é que de um ou do outro, d’aquelles com quem flirtou, recebeu desdens que a molestaram.
Assim o declara a Nise, sua confidente, n’uma longa poesia.
Teve a vibratil creaturinha com o abandono, ou com a frieza do homem que adorava, uma commoção profunda.
E, como qualquer movimento do seu espirito crystalizava em versos reveladores, logo a sua alma dolorida gemeu em estrophes que dão a voz do seu desespero:
Coração! Basta o soffrido
Ponhamos termo ao cuidado,
Que hum despreso averiguado
Não he para repetido;
Basta o que havemos sentido
Não demos mais ao tormento,
Que passa de soffrimento
Dar por um desdem tyranno
Toda a alma ao desengano
Toda a vida ao sentimento.
Fujamos d’este perigo
Livremo-nos, coração!
Que não he bom galardão
O que parece castigo.
Eu comvosco e vós comigo
Melhor o mal passaremos,
Pois entre amantes extremos
Tão divididos ficamos,
Que se nos communicamos
He só quando padecemos.
D’esta excitação nasceu provavelmente o passo que deu, e que havia de transformar a sua vida.
Sem haver uma causa conhecida que a afastasse da casa paterna, do mundo que a adulava, dos admiradores que festejavam a sua formosura e o seu engenho, e dos pretendentes que aspirávam á sua mão, Violante subitamente, contrariando a vontade dos paes, que a adoravam, determinou encerrar-se n’um mosteiro.