Foi para muitos um mysterio a sua resolução, e ainda hoje alguns biographos teimam em ignorar o motivo d’esta renuncia a tudo o que seduz e attrahe as mulheres.
A este tempo ainda não tinham apparecido impressas as poesias de Violante, e aos poucos que as conheciam faltava o faro necessario para surprehender, nas moitas e nas selvas embrenhadas dos sonetos, decimas e odes da musa, o segredo do seu amor.
As amigas iniciadas—as Nises, as Menandras, as Belisas—não trahiram a confidencia da musa dolente. Mas as queixas, apezar de congeladas em versos hirtos, derretem-se, quando esses versos são humedecidos pelo bafo tepido de uma interpretação carinhosa, e pela sympathia do critico. É facil então de ver que não a chamava uma vocação irresistivel. Impellia-a o coração esmagado.
Tão fracas eram n’esse periodo as suas tendencias mysticas, tão pouco intenso o fogo do amor divino, que o que principalmente lhe assaltava o animo era receios de um arrependimento, e de que, ao olhar para traz, a espicaçassem saudades dos attractivos do mundo que deixava.
Relembrando a estatua de sal em que se transformára a mulher da Loth, invocava Deus, exclamando:
Oh nó permittais vós que arrependida
Los ojos buelva más a lo que dexo
Pues otro ya, Señor, femineo sexo
Por bolver a mirar quedo sin vída.
Por isso, rapidamente, sem olhar para traz, (não fosse ainda a imagem perturbadora do infiel detel-a), entrou como noviça em Agosto de 1629 no Convento de Nossa Senhora do Rosario, a que o vulgo chamava—da Rosa.
Era este convento situado na rua das Farinhas, da Freguezia de S. Lourenço, e fôra edificado no terreno que um tal Vicente Martins Michão, sobrinho do Bispo de Silves, doára em 1279, para n’essa courella de vinha ser instituido um mosteiro de Dominicanas.
Desde o seculo XIII até á era de seiscentos vinha o sagrado cenobio augmentando-se e enriquecendo, a ponto de, quando Violante n’elle entrou, ser um dos mais opulentos e povoados da capital. Frey Nicoláo de Oliveira, que escreveu por este tempo as «Grandezas de Lisboa», diz que «havia n’elle cento e trinta mulheres entre freiras e servidoras».