Por que escolheu Violante este convento?

Vivia ella junto á Sé, na casa em que nascera a 30 de Maio de 1602. Era perto da rua das Farinhas. Tinha n’aquelle mosteiro amigas, talvez confidentes, e de certo tambem o seu confessor, que porventura lhe ouvira queixas mais concretas do que as reveladas nos seus versos.

As tradições de recato d’este convento quadravam ao seu feitio espiritual e, por seu lado, attrahia-a a ideia de que a ordem não era demasiadamente apertada, e de que a disciplina permittia confortos defesos á de outras communidades, como á da Madre Deus, na qual as freiras não tinham serviçaes.

O Padre Manuel Bernardes, contemporaneo de Soror Violante, querendo exaltar a modestia das Claristas, escreve n’uma das apostrophes da Nova Floresta:

«D’estes escrupulos hoje ha poucos, ou se os ha devem passar pela peneira da consciencia, porque é rara. Ver hoje uma cella d’estas, que não são Santa Clara, é ver uma casa de estrado de uma noiva, laminas, oratorios, cortinas, sanefas, rodapés, tomados a trechos com rosas de maravalhas, banquinhas de damasco, franjadas de seda ou de ouro, pias de crystal, guarda-roupas de Hollanda, caçoulas, espelhos, craveiros, mangericões, ou naturaes ou contrafeitos, passarinhos, cachorrinhos de manga, que, se adoecem de puro mimo, se chama o mais perito na arte de os curar, jarros, ramalhetes, porcellanas, brinquinhos de sangria, figuras de alabastro ou de gesso, frutas escolhidas para coroar as molduras da alcova ou dos contadores, perfumes, alambiques, todo o genero de arame para a fabrica dos doces, almarios para os recolher, criadas para o ministerio da casa, tecto da cella com taes paizagens, relevos e pinturas que passam para as mãos dos officiaes as bolsas dos parentes e devotos mais ricos. Oh! que temos licença e assim não violamos o voto...»

Eram assim as cellas das freiras, de que o doce Bernardes extranhava o sybaritismo. E assim devia ser a de Soror Violante do Céo, tendo ainda a accrescentar-se junto do cachorrinho de manga e das sanefas tomadas a rosas de maravalhas, a harpa que tangia em horas de inspiração, e o bufete onde escrevia as suas Rythmas, os Soliloquios, os Divinos e humanos versos.

Este titulo quadra bem na obra em que foram reunidos n’um Parnaso Lusitano muitos dos versos sahidos d’aquella cella, onde a famosa dominicana no seu habito branco, ora se entretinha com Deus em meditações mysticas, ora se dirigia aos grandes da terra—Reis—Principes e Nobres—ora desentranhava do proprio coração gritos de profano affecto, de que se arrependia depois:

«Si escrivi, si canté de objecto humano,
Y no solo de vós, Divino objecto,
En la publicidad de tal defecto
Bien castigado está mi error profano.»


Vem aqui a talho de foice uma pergunta, que estou sentindo aflorar á bocca de quem me lê. Pergunta indiscreta, maliciosa talvez, mas natural, quando se conhece a alma inflammada da monja da Rosa, e quando se recordam leituras em que passam phantasmas leves de freiras amorosas, ou tragicas, ou de leviana memoria.