Perguntar-se-me-ha, (como se eu tivesse o privilegio da madre vigilante, que, ao longo do claustro ou dos corredores da Rosa, escutava os colloquios mysteriosos das noviças), perguntar-se-me-ha se nenhuma aventura de profano amor perturbou a existencia de Soror Violante desde os 23 annos, em que para alli entrou, até os 91, em que morreu quasi de subito n’uma noite fria de Janeiro de 1698.
Não é possivel garantir que nos seus sonhos, ou que nas horas perigosas da quadra do anno, em que a natureza se renova e invade com os philtros estonteadores os organismos vivos, o seu coração não recordasse as doces tempestades dos tempos em que, moça, o sentia bater apressado. Não asseguramos tambem que nas trevas das suas noites de vigilia se não desenhasse luminoso o espectro d’aquelle que a fizera padecer.
Mas durante os sessenta e trez annos que n’aquella cella recordou e formulou em verso os seus lamentos, não entrou alli homem, senão porventura na imagem, já muito diluida d’aquelle Silvano, que primeiro lhe despertou o coração ou do outro, que por desgraça distinguiu passageiramente. Mas só a imagem.
Um ponto melindroso ha, porém, na sua vida sentimental que um seu biographo tratou com menos delicadeza.
Costa e Silva, referindo-se á mania das que entravam para freiras por despeito, escreveu o seguinte:
«Creio que foi esta a sorte de Soror Violante do Céo, não só pelo seu modo de vida todo profano, mas porque a idéa de piedade, e o fervor religioso, não póde de modo algum combinar-se com varias poesias que se deparam entre as suas, tão cheias de arrebatamentos apaixonados, de admirações da formosura, de certa Menandra, de colloquios ternos, de finezas ardentes, e, o que é mais em estylo tão natural, despido dos seus costumados gongorismos, como ditado pelo coração e não pelo espirito, que dão motivo para desconfiar muito da sua honestidade.»
E o casmurro commentador transcrevendo uma poesia que julga de equivoca interpretação e reveladora de intimidades suspeitas, accrescenta:
«Ora, como me parece que uma amizade simples e pura nunca usou de semelhante linguagem, presumo que, sem escrupulo, poderei inferir d’esta e de outras poesias que a moderna Sapho ardeu nas chammas d’aquelle amor inatural de que foi accusada a antiga Sapho.»
A poesia em que o resmungão encontrou resaibos lesbianos e um indicio de paixão amorosa por essa Menandra, a quem se dirige com hyperbolica emphase, não é prova senão dos exageros da escola e da epocha. D’essa poesia destacamos as quadras em que Costa e Silva encontrou prova do amor inatural de Soror Violante: