«Se vivo en ti transformada
Menandra, bien lo averiguas,
Pues quando me atiras flechas
Hallas en ti las heridas.
Flechas me tiras al alma
Mas quando flechas me tiras
Como en ti misma mi hieres
Hallas la herida en ti misma.
Tu mano candida, e bella,
Dulce Señora, lo diga,
Pues siendo yo la flechada
Ella fué solo la herida.
Ya no dirás que en tu mano
No tienes el alma mia;
Pues quando el alma mi hieres
Sangre tu mano destila.»
Não defendemos o mau gosto que esta gymnastica de vocabulos revela, mas o que é certo é que qualquer freira escrevendo a outra freira, ou qualquer Filis dirigindo-se a uma Cloris sobre materia de amizade, usava de metaphoras e de hyperboles tanto ou mais inflammadas, que as das poesias da nossa Violante, sem que d’isso se inferisse que eram inspiradas pela sensualidade.
A transposição para uma oitava acima, como na éra de seiscentos se fallava e escrevia em toda a Europa, sem excepção da Inglaterra, onde o Eufuismo introduzido por Lyly florescia, torna suspeitos, lidos hoje, trechos que então eram de uso corrente.
Se a cella da musa dos Divinos e humanos versos se tivesse transformado em alcova almiscarada de espasmos lubricos, não seria ella decerto que viria devassar os mysterios do tabernaculo, em quadras que são, não o nego, expansões algo alambicadas de amizade requintada, mas nunca requebros amorosos de femineas concupiscencias.
Para se avaliar do sentido que Soror Violante ligava ao sentimento de amizade deverá ler-se o soneto em que ella se dirige a uma amiga, cujo transparente anagrama de Belisa indica uma Isabel, talvez D. Isabel de Castro, a quem tambem dedicou uma epistola por ocasião da morte da Rainha D. Luiza.
É como se respondesse á suspeita que sobre ella recahiu, não em vida, mas duzentos annos depois de morta.
«Belisa, el amistad es un tesoro
Tan digno de estimar-se eternamente,
Que a su valor no es paga sufficiente
De Arabia e Potosi la plata e oro.
Es la amistad un licito decoro,
Que se guarda en lo ausente y lo presente
Y con que un amigo el otro siente
La tristeza, el pesar, la risa, el lloro.
No se llama amistad la que es violenta
Sinó la que es conforme simpatia,
De quien lealtad hasta la muerte ostenta.
Esta amistad es, que hallar queria
Esta la que entre amigas se sustenta
Y esta, Belisa, en fin la amistad mia.»
Ora diga-me o leitor imparcial, se quem faz este soneto tinha de Sapho a paixão ardente.
E são tantas as senhoras a quem Soror Violante se dirige á Condessa de Penaguião e á Duqueza de Aveiro, ás poetisas D. Marianna de Luna e D. Bernarda Ferreira de Lacerda, á Condessa da Vidigueira e a outras mais, sem que das suas poesias rescenda o aroma capitoso com que a poetisa grega perfumou as suas, que entro a suppôr ter Costa e Silva tido o proposito preconcebido de attribuir a Soror Violante costumes, que melhor se conformam com as liberdades lesbias, do que com as austeridades das filhas de S. Domingos.