«e pois vemos não poderdes
resistir ás opressões
com que casastes,
dó na côrte pelo serdes
tomaram mil corações,
que vós quebrastes.»
Entre esses mil corações enternecidos contava-se o do Principe D. Affonso que, segundo o pintam as chronicas era «muito cheio de branduras e prezava-se muito da sua gentileza.»
A rapariga, como era natural, tambem prezava a gentileza d’esse ephebo real que:
«Por sua gran formusura
foi no mundo nomeado
angelica creatura.»
e que «se vestia sempre de tabardos com martas ao pescoço forradas de setim e guarnecidas de ouro.»
Ora os requebros do Principe D. Affonso e de D. Branca desagradavam de certo ao aspero D. João II, a quem não convinha nem uma ligação clandestina, da qual podia provir um rebento indesejavel, nem um casamento que lhe desmancharia o taboleiro politico. Agastava-se com a indole branda e macia do filho, «mais inclinado ás cousas d’El-Rei D. Affonso V, seu avô, que ás suas.»
Censurava-o muitas vezes por tentar transgredir a ordenança que prohibia sedas e brocados, chaparias e canotilhos, e increpava-o por não trazer capas abertas nem espada. Vendo-o preferir a companhia de homens delicados á dos rudes homens d’armas, reprehendia-o e amoestava-o com mau modo. Mas... não podia tirar-lhe o seu natural.
A antithese entre os dous caracteres era tão profunda como fôra entre a de seu pae cavalheiroso, idealista, sonhador, e a sua de homem de Estado, intransigente, frio e positivo.
Agora á antinomia dos animos juntava-se a dos corações! O Principe D. Affonso era um amoroso, D. João II um politico.
Aquelle deixára-se enfeitiçar pela rapariguinha namoradeira que era o «Ai Jesus» da roda cortezã. Este sentia o perigo das frioleiras sentimentaes. E, com a implacavel decisão com que sempre resolvia os negocios de Estado, determinára desunir os dous pombos arrulhadores.