Assim, a encantadora sobrinha do Conde de Marialva, a seductora Branca dos Porquês de Setubal, a Coutinha dos Serões do Paço, onde as palavras coutinhas eram equivalentes de galanteio, foi levada a casar com Jorge de Mello por alcunha o Lageo, capitão, e anadel-mór de besteiros.
O Principe, esse, pouco depois, e ainda todo enleiado nas recordações do seu entretenimento amoroso, estava destinado a cumprir o estipulado por seu pae com os Reis Catholicos, Fernando e Izabel, consorciando-se com a Infanta sua prima filha d’estes.
Tinham os dous passado parte da infancia juntos, em Moura, quando foi das terçarias, á guarda da Infanta D. Beatriz.
Conheciam-se. Estimavam-se. Attrahia-os mesmo uma reciproca sympathia. E como ao tempo que a Infanta veiu de Castella, já D. Branca tinha sido afastada da Côrte, havia mezes, com o seu Lageo, a primeira entrevista começava a ser appetecida pelo Principe.
Ao encontro da noiva vieram a Extremoz o Pae e o Filho, incognitos, trazidos pela curiosidade.
O Rei desejando saber se a promettida Nóra que vinha de Castella teria as qualidades que as suas ambições requeriam. O Principe avaliar as mudanças que o tempo, esse grande esculptor, operára na esthetica e na plastica d’aquella creaturinha que, havia dous annos, elle deixára franzina, pallida, esmaiada, nas fraguras da insalubre villa alemtejana.
Apparecia-lhe ella agora n’um scenario de sonho, entre as suas nove Damas, cardeaes, nobreza de Castella, numerosos cavalleiros, ao som de musicas festivas, entre bandeiras das suas cores e armas, que no alto das torres e muros tremulavam, e acompanhada por folias de homens e moças que, nas ruas armadas de tapeçarias, bailavam sobre os ramos de espadanas. E vinha tão linda, que o proprio Duque de Beja (o futuro Rei D. Manoel) que a fôra esperar, sentira subitamente a faísca, que havia de incendiar-lhe no animo a paixão pela noiva de seu Primo.
Este chegára a Extremoz com o seu Pae., ambos «vestidos de caminho». Dirigiram-se logo para a casa junto do Castello onde habitava a Princeza, que n’esse momento jantava com a sua comitiva, e que tão alvoroçada ficou que, interrompendo o banquete, veiu ao topo da escada esperal-os, e alli ajoelhou commovida.
O Rei fez-lhe um discurso. O Principe, porém, ficou calado, suspenso, encantado com a transformação. E é de crêr que n’essa hora se desvanecesse por completo na sua memoria a imagem de D. Branca, que a esse tempo déra já descendencia ao marido, Capitão-mór de Mazagão.
Dos sentimentos do Principe dá conta, e em termos expressivos, o chronista Garcia de Resende no seguinte trecho que tem o sabor especial da sua prosa: