«E á sexta-feira e ao sabbado esteve a Princeza no dito mosteiro (Nossa Senhora do Espinheiro), onde d’El-Rei e do Principe por suas pessoas foi sempre visitada. E segundo fama antes d’ella entrar na cidade, alli nas casas do mosteiro, onde pousava, teve o Principe ajuntamento com ella, o que de muitos foi estranhado por ser em casa de Nossa Senhora, e de tanta devoção. E affirmou-se por mui certo que n’aquella noite cahiu da parede da igreja uma ameia junto da camara d’onde jouveram, a qual ameia até hoje não foi concertada, e está assim por memoria que os frades d’isso fizeram.»
Os bons dos monges resmungaram, ao que se vê, pela supposta irreverencia, mas os dois Principes amorosos já haviam a esse tempo, um pouco prematuramente, mas com legitimo direito, saccado uma somma de caricias, que ambicionavam, por essa innocente lettra de cambio, talvez presentindo que o futuro lhe reservava pouca duração na felicidade.
Effectivamente logo oito mezes depois das pomposas festas d’Evora rebentava a tragedia de Almeirim.
Na cabana do pescador do Alfange, junto ao Tejo, o Principe ia agonizando. O silencio pavido da Rainha e da Princeza recem-casada, contrastava com o alarido dos prantos e com as desvairadas manifestações da assistencia afflicta «dando todos em si muitas bofetadas, depenando muitas e honradas barbas e cabellos e as mulheres desfazendo com suas unhas e mãos a formosura dos seus rostos que lhes corriam em sangue.»
Acompanhando a Rainha e a Princeza, primeiro a pé desatinadamente, e depois em mulas emprestadas, viera tambem, e agora assistia recolhidamente ao passamento do irmão, o Senhor D. Jorge, mocito de pouco mais de nove annos que, havia pouco andava na Côrte.
Perante a certeza da morte do herdeiro do throno, logo alli se levantaram em muitas imaginações, entre lamentos e queixumes extravagantes, as duvidas sobre a futura successão.
A Rainha em 1483 estivera á morte com um movito que a inhabilitara a dar ao Rei outro herdeiro.
Restavam dois: D. Manoel Duque de Beja, irmão da Rainha, que a essa hora fôra já chamado de Thomar; e o Senhor Dom Jorge a quem D. João II, seu pae, queria tanto ou mais que ao moribundo.
É que o bastardo, aquelle pequenote que agora estava alli junto ao catre, mal ageitado n’uma aljubeta, saccudido por soluços, fôra o filho dos seus amores. Sentia correr n’elle o proprio sangue. Achava-lhe (talvez com illusões de pae), qualidades que lhe lisongeiavam o orgulho, emquanto que ao Duque seu primo e cunhado, todo affecto aos Braganças, se não o odiava nem perseguia, repugnava-lhe comtudo pensar que por elle essa familia, inimiga e rebelde, havia de apossar-se do seu espolio politico, usufruir as vantagens da faina rude em que se empenhara para engrandecer o poder real.