O Sr. D. Jorge, que nascera em 1481, ia breve entrar na puberdade.

Fôra educado em Aveiro por sua tia a Princeza D. Joanna, filha de D. Affonso V, até que, por morte d’ella viera para a Côrte, trazido por seu pae, a quem a Rainha D. Leonor nobremente, e com uma dignidade que o orgulho nativo fazia realçar, prometteu ao marido que d’elle cuidaria ella propria como se fosse seu.

Cumpriu-o... até á morte do herdeiro.

Durante os treze mezes que esteve no Paço, D. Jorge foi tratado como um segundo filho.

Depois... Depois seguiu-se o drama violento que as chronicas deixam claramente entrever, e a que D. Antonio Caetano de Sousa chama na Historia Genealogica—domesticos dissabores—e que nós a mais de quatrocentos annos de distancia concebemos, recompomos, e scenographamos conforme a nossa imaginativa e os elementos que conhecemos.

Esses elementos, nascidos da humana condição de cada um dos personagens, e gerados na profundeza dos seus animos, são, conforme as indoles e caracteres dos figurantes: em D. Leonor um mixto de ciumes retrospectivos, agora assanhados com a ferida aberta no seu coração de mãe, a repugnancia em ver o lugar do seu proprio filho occupado pelo bastardo, o amor proprio de Rainha, que não podia resignar-se a ver que D. Anna de Mendoça, havia tempo commendadeira era Santos-o-Novo, viesse a ser mãe do Rei; em D. João II era a voz do sangue clamando em favor do proprio filho, era a razão de Estado que se afigurava lucrar mais collocando D. Jorge no throno, era a sua phobia brigantina, era a sua alma tempestuosa exarcebada pela desgraça; em D. Manoel, simples Duque de Beja, era a natural ambição, era a visão das grandezas, a corôa de Rei, o interesse da familia e, já no fundo, bem no fundo do coração, a miragem da posse da Princeza, agora viuva, que desde a primeira vista o seduzira, e que d’ahi a poucos annos veiu a ser a primeira das suas trez mulheres.

Não nos occuparemos agora das peripecias d’esse drama, nem da lucta de sentimentos entre essas trez principaes figuras.

Olhemos para a causa das divergencias—o Senhor D. Jorge,—assim chamado por não ter ainda o titulo de Duque, que depois recebeu, e não poder usar o de Principe.

O mesmo tratamento se dava ao irmão do justiçado Duque de Bragança, que foi chamado o Senhor D. Alvaro.

O filho illegitimo foi logo, desde que o Principe morreu, afastado do Paço por El-Rei, no intuito de «tirar paixão á Rainha sua mulher com a vista da Senhor D. Jorge». Entregou-o aos cuidados do Conde de Abrantes, em casa de quem esteve alguns mezes, emquanto tentava desfazer as repugnancias de sua mulher á legitimação do bastardo, e emquanto ia pedindo ao Papa Innocencio VIII Bullas que o investissem no Mestrado da Ordem de Santiago e no governo e administração da Ordem de Aviz.