Chegaram essas Bullas.

Então, no proposito de engrandecer o filho, e talvez com o designio de ir preparando o que hoje chamariamos a opinião publica, acostumando-a á ideia da sua supremacia, determinou dar toda a solemnidade á cerimonia da posse dos mestrados.

Convocou numerosa e selecta assistencia á egreja do convento de S. Domingos e alli, a 12 de Abril de 1492, com a sua presença, o que mais avolumava a pompa e magestade do acto, foi celebrada missa solemne, em seguida á qual, todos os commendadores e cavalleiros das duas Ordens deram obediencia ao novo mestre.

Novo e moço. Tinha apenas onze annos, quando n’aquelle vasto templo dominicano passaram em sua frente, prestando-lhe homenagem, guerreiros de Toro, e nobres cavalleiros, cortezãos e fidalgos, ostentando nos magnificos mantos brancos a verde cruz floreteada de Aviz, e a vermelha de Santiago.

Pequenino pela edade e por ser miudo de estatura, o Mestre D. Jorge, com uma tunica de brocado sob o manto, acceitava como devidos á sua hierarchia os preitos dos cavalleiros das Ordens, ao passo que El Rei D. João II, remirando-se no filho, ruminava no modo de o legitimar para o deixar como successor. Bastardo? Que importava?

Bastardo fôra tambem o mestre de Aviz, D. João I, seu bisavô. E João das Regras com a sabedoria que trouxera de Bolonha, demonstrara a validade dos seus direitos.

Onde se encontraria um João das Regras para D. Jorge? Á falta d’elle nomeou-lhe para aio D. Diogo Fernandes de Almeida, que logo depois foi Prior do Crato, sendo já cavalleiro da Ordem de S. João de Rhodes. Heróe d’Africa, os seus feitos gloriosos tornavam-n’o indicado para formar um homem.

O pequeno, porém, era de natureza brando, frimatico (como então se dizia).

D. Diogo não soube ou não poude fazer fermentar na sua alma quieta a levadura da ambição. Adolescente, deixou-se levar emballado na corrente da vida, fluctuando como uma flôr rara sobre as ondas movediças, que agitavam a Côrte.

Assistiu, primeiramente, impassivel (talvez até ignorando-o) ao drama que se desenrolava e de que elle era o fulcro innocente.