Acceitou depois, com boa feição e de animo complacente, a chuva de graças que sobre elle foi cahindo durante a longa mocidade.

O Pae, disistindo de proposito de fazer d’elle Rei de Portugal, recommenda no testamento a D. Manoel, a quem deixa o Reino, que «se não tiver filhos o nomeie seu successor e sempre se queira haver com elle.»

Por esse testamento assignado na Villa das Alcaçovas a 29 de Setembro de 1495, faz doação ao filho, da cidade de Coimbra em Ducado, e de tudo mais que tivera o Infante D. Pedro.

Recommenda-lhe tambem que supplique para elle ao Papa o mestrado de Christo, pelo que D. Jorge ficava mestre das trez Ordens, o que significava uma situação florescente em honras, em influencia e em riquezas.

Não contente com isto, insta no mesmo testamento, com D. Manoel, para que conceda ao novo Duque de Coimbra a mão da primeira filha que vier a ter.

Era ainda uma ancora feita de esperança, lançada no futuro a favor do filho.

Feito o testamento, D. João II, muito doente, hydropico, malenconizado, e sentindo retalhadas as entranhas pela peçonha que bebêra, havia annos, n’um pucaro junto á Fonte Coberta, partiu das Alcaçovas para Monchique, no Algarve, onde esperava encontrar allivios.

O filho acompanhou-o. Mas nem a presença d’elle o distrahia, nem as danças e luctas dos vaqueiros da Serra o alegravam, nem a corrida aos porcos lhe desenferrujava as articulações.

Tomou dois banhos com pouca cautella, bebeu agua das Caldas mais do que devêra e, peorando, resolveu regressar, indo dormir a Alvor.

D. Jorge apresentou-se em Villa Nova de Portimão, d’onde foi ver o Pae duas vezes.