Ruy de Pina dá a entender que essas visitas rapidas deram azo a conjecturas ácerca da successão.
A verdade, porém, é que já a esse tempo o Rei temia «rebates de carne», que, dias depois, quando se sentia morrer, mais ainda quiz evitar, afastando de si o filho, cuja presença lhe trazia ao espirito lembranças das faltas commettidas no passado.
A sua morte, nas casas de Alvaro de Ataide, em Alvor, remata com singella belleza o drama impressivo que foi a vida desse homem tamanho.
Emquanto transportavam o corpo de D. João II para a Sé de Silves, o filho, que completára em Agosto quatorze annos, ficou em Portimão.
Alli, recebeu todos os Senhores e Fidalgos, que então estavam no Algarve, e d’alli voltava, quando encontrou Henrique Correia (meio irmão de sua Mãe), que lhe trazia uma carta de pezames de D. Manoel, então já Rei, que se achava em Monte-mór-o-Novo.
O aio Diogo Fernandes d’Almeida levou-o logo a saudar o Soberano.
Já então D. Manoel estava seguro no throno e descançado ácerca d’aquellas «duvidosas alterações» que, nos ultimos dias de vida do primo e cunhado, lhe assaltavam o animo.
Recebeu, por isso, com boa avença o rapazelho, que agora definitivamente deixava de ser um temivel obstaculo ás suas ambições, e escutou com favoravel disposição o discurso em que o velho aio o recommendava á sua generosidade.
Não era necessaria tanta eloquencia. O Rei D. Manoel logo satisfez o pedido, outorgando fartos beneficios ao pequeno primo.
O Bispo D. Jeronymo Osorio no seu livro «De rebus Emmanuelis», transpõe em linguagem de Tacito a falla do ancião. Alli se vê que a grandiloquencia de D. Diogo arrancou lagrimas ao benigno Soberano (adeo fuit Emmanuellis maeror excitatus). A ventura (e elle foi o Rei venturoso) dispõe o animo para a magnanimidade.