Sobre a cabeça do feliz Duque iam sempre cahindo honrarias e benesses.
Pouco tempo depois de voltarem ao Reino, fez-lhe El-Rei doação das Villas de Montemor-o-Velho, de Penella, de Torres Novas com seus termos e o Reguengo de Campores, com muitas terras e Padroados.
E como a esse tempo ainda não tinha filha casadoira com que o juntasse, cumprindo o que em testamento lhe recommendára D. João II, procurou nos circulos de escol quem pela categoria, situação e belleza pudesse vir a dar uma duquezinha de Coimbra capaz de figurar no esplendor da Côrte manoelina.
Andava então na roda do Paço, e fazia as delicias dos Serões, uma senhora, parenta proxima de El-Rei, cortejada por todos os poetas e versejadores, e de formusura tão rara que em trovas e motes a cantavam, dando-lhe o sobrenome significativo de a Perigosa.
E perigosa era decerto D. Brites ou Beatriz de Vilhena, pois que, se facilmente se apaixonavam por ella todos os homens, difficilmente podia pertencer a algum, visto que era filha do Sr. D. Alvaro, irmão do Duque de Bragança, e portanto muito chegada ao throno.
Este Sr. D. Alvaro era alguem. Sem appellido, pois o não tinham os filhos dos Duques de Bragança, batalhara valentemente em Toro, achara-se no cerco de Samora, e fôra perseguido, como todos os Braganças, por D. João II que, primeiramente, o empurrou para fóra do Reino e depois lhe confiscou a casa e bens.
Recolhido com carinho por Fernando e Izabel de Castella, para alli mandou ir a mulher e os filhos. D. João II, porém, fizera constar ao Conde de Olivença, sogro do Sr. D. Alvaro, que desejava ficasse no Reino uma filha do desterrado a quem daria toda a casa e fazenda do pae.
Entregue á rainha D. Leonor, ficou vivendo no Paço, D. Beatriz, que tomou o appellido de Vilhena.
Tornando-se assim senhora de uma grande fortuna, e brilhando na Côrte com uma rara formosura, era deveras perigosa a altiva Beatriz, em torno da qual enxameavam, chamuscando as azas, numerosos poetas e adoradores.