Esboçára mesmo um idyllio, que pouco passára dos prolegomenos, e que, tendo ephemera duração, deixou comtudo nos dois uma recordação amavel.
O chronista Francisco de Andrade, fallando ácerca d’este episodio, diz assim: «com quem, andando no Paço o mestre travara outros amores».
Seriam amores. Mas não foi amor. Não passaria, talvez, de uma amizade amorosa que, por uma reacção exotica de chimica sentimental, se transformou primeiramente n’um interesse accentuado pela rapariguinha filha d’aquella com quem flirtára. E o interesse que pouco a pouco foi crescendo em intensidade, e sempre n’um movimento ascencional a pouco trecho desabrochou n’uma paixão violenta.
Um caso de transubstanciação psychica.
A Rainha, que ao principio, não fizera reparo maior nas assiduidades de D. Jorge, cuja edade lhe parecia garantia para a seriedade da sua Casa, quando se inteirou do encantamento de que fôra tomado o primo, determinou dar providencias.
O mundo feminino do Paço agitou-se. D. Maria Manoel sentiu em volta de si condensarem-se nuvens ameaçadoras de borrasca.
Mas... deixava-se adorar...
Não estava ainda inventada a palavra snobismo. Comtudo, o sentimento que o vocabulo traduz na sua graduação variadissima, e nos infinitos cambiantes não é só d’este ou d’aquelle tempo, é fundamentalmente humano. Vaidade lisongeada, ambição de honrarias, ostentação de intimidade com os poderosos da terra, seducção pelas grandezas, desejo de brilhar com luz alheia, são modalidades da alma humana, que vem com pequenas differenças ab initio.
A nossa Mãe Eva, tal como a descrevem na famosa scena, seduzida pela serpente, que lhe accena com grandezas e lhe desvenda mundos desconhecidos, é já rudimentarmente snob e profundamente feminina.
Como não o seria D. Maria Manoel, Dama da Rainha D. Catharina, perante a miragem d’uma corôa de Duqueza, promettida por um homem que, para attenuar as devastações da edade, tinha ainda attractivos proprios, e um grande prestigio pessoal?