Deixava-se adorar...
Mas a Rainha, cuja austeridade em materia de amores chegou a tocar no desabrimento e aspereza, inspirando até, ao que parece, a Camões desterrado a celebre ode que diz:
«Oh crua esquiva e fera
Duro peito cruel e empedernido;»
a Rainha, que os amores do Senhor Dom Jorge contrariavam, interveiu severa, impedindo a continuação das entrevistas.
Então o Duque, como se fosse namorado imberbe, entrou a escrever bilhetes e a mandar recados á Dama da Rainha, por creados ou terceiras pessoas, com pouca cautela e recato.
Amigos e parentes censuravam-n’o inutilmente.
A paixão desenfreada do Duque não conhecia barreiras. Queria forçosamente casar com a rapariguinha, désse por onde désse.
E ella ia-se deixando adorar...
Então o filho do Senhor D. Jorge, o Marquez de Torres Novas, agora já Duque de Aveiro, que tão contrariado fôra nas suas pretensões á mão de D. Guiomar Coutinho, foi quem se levantou com mais sanha, oppondo-se ao casamento do pae. Ajudava-o n’essa empreza D. Jayme, seu irmão, Bispo de Ceuta, que, por ser creatura muito affecta á Rainha, que o fez Capellão-mór, contribuia para crear todos os obstaculos ao casamento do Duque, dando-se então a estranha situação de se ver um Prelado, um Bispo, um Principe da Egreja oppor embaraços ás amorosas pretensões do seu progenitor.
Elle e o Duque de Aveiro dirigiram-se ao pae, expondo-lhe respeitosamente, mas com firmeza, os inconvenientes do casamento.