Casuistica amorosa!

Todo este documento, aliás curioso, e feito com raciocinio de apaixonado, é digno de figurar n’um curso de psychiatria.

Á Rainha escreveu o Senhor D. Jorge tambem, implorando que interviesse junto de El-Rei D. João III. E no paroxismo da paixão chegava a dizer, que quanto mais o contrariassem, mais esbanjaria a fazenda de sua Casa. (Esta ameaça era dirigida contra os dois filhos que sabia patrocinados pela Rainha.)

O Rei mandou responder-lhe em Novembro. Entre outras coisas dizia-lhe que «não póde chamar-se casado quem não tem faculdade para isso pelo gráo de parentesco sem dispensa.»

Para terminar dava-lhe o golpe de misericordia.

Annunciava-lhe que o Papa e o Nuncio tinham negado a licença!!!

Era o desmoronar de todos os castellos que a sua imaginação romanesca construira! Os dois annos que lhe restaram de vida levou-os a consumir-se... e a distillar illusões.

Quando em 1550, pouco antes de morrer, fez testamento, a paixão estava já como que volatilizada pela temperatura elevadissima que lhe abrazára o coração durante o periodo em que viveu caminhando no seu sonho exaltado.

N’uma verba d’esse testamento diz em palavras que, embora frias na apparencia, encerram ainda uma prova de affecto:

«Deixo a D. Maria Manoel, pela obrigação que lhe tenho em lhe prometter de casar com ella se o Santo Padre dispensar, mil cruzados da terça do dote que minha filha D. Elena me ha de levar e assim lhe deixo um Alvará do Duque meu filho em que me promette a valia de cem mil réis de renda para minhas obrigações em vida de sua pessoa para assim e na maneira que se no dito alvará contém que quero que haja non cazando ella, e casando, se distribuir em obras como acima digo.»