Deste rumor chegou echo aos ouvidos do Marquez de Villa Real, que se julgava seguro d’esta noiva para seu filho, fundado n’uma supposta promessa de El-Rei. E como detestava o Duque de Bragança, e não estava longe de suppôr que este projecto nascesse no intuito de «o danar» fazendo-lhe picardia, escreveu uma carta desabrida a El-Rei.

Mas não era para si que o Duque de Bragança D. Jayme a queria, pois talvez já a esse tempo andasse tomado de amores pela que devia ser sua segunda mulher, e ainda não estava desligado d’um compromisso que por elle tomára El-Rei D. Manoel, de casar com D. Leonor de Noronha, filha do Marquez, senhora de grande erudição, mas de poucos attractivos femininos.

Era para o proprio filho, D. Theodosio, embora tamanino, que o Duque de Bragança ambicionava a gentil noiva.

Havia, porém, da parte de El-Rei D. Manoel, como se vae ver, uma intenção reservada.

Damião de Góes, o chronista, diz-nos que sendo ella «hua das formosas e bem dispostas mulheres que em seu tempo houve n’estes regnos com as quaes partes e nobreza de sangue, e bom dote que tinha, trouxe sempre opinião de casar com o Infante D. Fernando, filho terceiro D’El-Rei D. Manoel, posto que fosse muito mais moço que ella.»

E accrescenta:

«Mas por isto não lhe succeder á vontade...»

É necessario notar que a vontade d’ella não era casar com o Infante. El-Rei é que, conforme elle proprio diz, a desejava «para algum dos meus filhos»... Excepto o mais velho, já se vê.

Ora, foi esse justamente, o herdeiro, o futuro D. João III, que esboçou um idyllio amoroso com a seductora prima.

Creados os dois na aula régia, eram frequentes as ocasiões de se encontrarem; de trocarem olhares a que davam significativa intenção; de entrarem juntos nos mesmos jogos de cartas que entretinham os serões, ou nos folgares que alegravam as horas da sésta nos jardins realengos.