Assistiam com egual interesse ás diversões de altanaria, quando, nos campos de Almeirim, os falcoeiros reaes largavam os açores e gerifaltes encarapuçados, a alarem-se elegantes na perseguição da voaria, pelas crystallinas manhãs da leziria ribatejana.

Sublinhavam as mesmas allusões nos Autos de Mestre Gil. Riam-se juntos das mesmas facecias com que os chocarreiros, bobos, e anões os debicavam nas ante-camaras. E nas festas da Capella ouviam com egual unção os sons do orgão a gemer plangente, emquanto na atmosphera se aspirava aquelle perfume mixto de rosmaninho, de alecrim e de incenso que tão favoravelmente dispõe as almas á terneza.

Os quinze annos d’ella rimavam com os do Principe.

E d’este rythmo das duas mocidades ia nascendo suavemente um sentimento...

Não ainda uma paixão.

Mas o lume ia-se ateando com indiscreta chamma, e os roazes do mundo já entravam o boquejar o caso.

É que, quando D. Brites vinha com sua mãe, de Santarem a Almeirim, assistir a alguma caçada ou torneio em que o Principe tomava parte, involuntariamente o seguia com o jacto luminoso dos seus olhos negros.

E quando, em Lisboa, nos Paços da Ribeira, as figuras declamavam no tablado as suas fallas com emphase, não era raro surprehender o herdeiro do throno, distrahido das arengas, procurar com a vista interessada as louçainhas da garrida Lara.

Á perspicacia de El-Rei D. Manoel não escapou o embevecimento do filho, que assim ia contrariar os seus planos. Ou talvez algum mexerico caseiro lhe segredasse que já na côrte se formavam conluios e projectos sobre a possibilidade d’aquelle enlace.

Occorreu-lhe talvez então á lembrança, que no reinado antecedente tambem o Principe herdeiro andara, muito novo ainda, captivo dos olhos languorosos de D. Branca Coutinho, e a promptidão com que o inflexivel D. João II atalhou o devaneio amoroso.