N’este caso tratava-se apenas de um namorico passageiro, uma iniciação de adolescentes. E a perturbante D. Brites não passaria para o Principe d’aquillo a que os Hespanhoes chamam—novia de verano, querendo significar que estes laços corrediços se atam e se desfazem com a mudança de uma estação, deixando apenas uma recordação risonha. Tudo levava a crer que assim fosse. Mas á imaginação do monarcha afigurava-se o perigo imminente, e resolveu acudir-lhe, retirando o fogo de ao pé da estopa. Não que a estopa já se estivesse inflamando, como parece quererem alguns deduzir do exame de uns documentos vindos a lume ha poucos annos.
Vem aqui a talho fallar n’esses documentos.
Foi Luciano Cordeiro, a quem João Bastos, o Director da Torre do Tombo, os revelou, que veiu com elles a publico no appendice de um folheto que tem por titulo—A Segunda Duqueza—e que mais propriamente se deveria chamar—A segunda mulher do Duque D. Jayme. Mas isso não vem para o caso.
Prestando homenagem ás qualidades de investigador d’aquelle publicista, que enriqueceu com alguns trabalhos a litteratura historica, seja-nos comtudo licito, sem menoscabo pela sua memoria, discordar da hermeneutica que usou na glosa d’estes textos.
Levado pelo engodo de apresentar inédito, de destruir lenda, de faire du nouveau, exagera a importancia d’esses documentos, ultrapassa o alcance das palavras e illude-se com a intenção de quem as escreveu.
Uma vez enveredado no labyrintho das conjecturas, tenta desfazer o testemunho dos chronistas, e explica a seu sabor os motivos do terceiro casamento de El-Rei D. Manoel, para o que architecta um plano de politica matrimonial, que vae muito além dos designios d’aquelle monarcha.
O que nos diz a Historia pela penna do coevo Damião de Góes, e de Francisco de Andrade, que não muito longe d’esse tempo viveu?
El-Rei D. Manoel, que era na verdade um grande casamenteiro, como o fôra Dom João de Bôa Memoria, distribuia a seu talante as noivas conforme os interesses internacionaes, ou conveniencias de familia.
E assim, no proposito de continuar a alliança com Castella, determinara pedir para seu filho, o Principe D. João, a irmã de Carlos V.