Entretanto enviuvou. E quando, tempo depois, chegou á Côrte o retrato de Leonor, que o artista favorecera com attrahente belleza, tanto se deixou embelecar com a pintura, que resolveu guardar para si o original.

D’ahi nasceu o despeito do futuro D. João III, o resentimento contra seu pae e o refrear a custo o sentimento pela madrasta.

Pela morte do Rei, esboçou-se até, como é sabido, um projecto de casamento com a Rainha viuva. E são conhecidas as peripecias d’este drama de que já em outros estudos nos occupámos, e a que alludem os historiadores desde Andrade na Chronica e Frei Luiz de Souza nos Annaes, até ao sisudo auctor da Historia Genealogica.

Luciano Cordeiro, porém, pega nos documentos em que fallamos, e d’elles tira conclusões, por vezes engenhosas, mas tão enfeitadas pela imaginação, que alteram os acontecimentos e (digamos a verdade) collocam pouco geitosamente alguns dos personagens d’esta historia.

É tempo de dizermos quaes sejam os documentos.

Quatro cartas existentes na Torre do Tombo, entre os papeis do Corpo Chronologico.

A primeira e segunda d’essas cartas são do Marquez de Villa Real, dirigidas a El-Rei D. Manoel a 10 e 11 de Agosto de 1515.

O opulento fidalgo estava nas suas terras de Villa Real, quando de Lisboa recebeu um aviso que o alvoroçou.

Annunciava-lhe o zeloso correspondente, que na Côrte se tratava de dar casamento á promettida noiva de seu filho, o Conde de Alcoutim. E com quem? Com o seu primo co-irmão, o seu maior inimigo, o Duque de Bragança D. Jayme («Inymigo pubriquo» confessa o Marquez).

Facil é conceber o seu furor com o recebimento de taes novas. Ferido no orgulho, que era apanagio da sua raça, escreve sem detença a El-Rei, queixando-se amargamente, e pedindo-lhe «que atalhe este caso».