Ora coincidindo com o desvanecimento do sonho azul de D. Brites, chegava a Lisboa, escorrendo gloria, o filho do Marquez de Villa Real.

Era D. Pedro de Menezes uma prestigiosa figura.

Como erudito tem lisonjeira menção nas obras de Cataldo Siculo, que em seus escriptos louva a eloquencia d’este Conde de Alcoutim, tanto em prosa como no verso latino, chegando a dizer-lhe n’uma carta:

«Non solum te nostratibus Poetis praefero, sed veteribus illis comparo

Seu avô, D. Pedro, achando-se um dia a jogar a chóca (especie do moderno golf) com outros fidalgos, foi chamado por D. João I para ir defender Ceuta. Pegou no páo com que estava jogando e disse para quem lhe trouxera o recado: «Com este cajado irei defender Ceuta dos Mouros». Por isso o escudo de armas de Villa Real tem por legenda—Aleo—isto é, o páo ou bastão com que D. Pedro batalhou.

Este tambem, como o seu antepassado, déstro e habil nos jogos athleticos, trocou o aleo com que jogava a chóca, pela espada com que entrou em Ceuta no anno de 1512.

Governou essa praça, e durante os cinco annos que alli permaneceu «conseguiu muitos triumphos e teve gloriosos successos».

Se não era um futuro Rei, era o herdeiro de um grande nome, parente da Casa Real, senhor de muitas villas e logares e... um noivo attrahente.

Quando desembarcou, vindo da Africa, tinham já corrido dois annos sobre o caso sentimental, que não passára de um flirt (permitta-se-me a expressão applicada a um namorico do seculo XVI), que apenas tivera importancia pelo muito que irritára El-Rei D. Manoel.

No coração da rapariguinha operara-se já, como n’uma retorta de laboratorio chimico, a reacção natural de que o tempo é poderoso agente.