Ambos os casaes foram felizes. Cada um a seu modo.

O Duque D. Jayme sentiu a mão delicada da antiga Inspiradora de Poetas, sarar-lhe a ferida, aberta na alma pelas recordações sombrias.

D. Brites e o Conde D. Pedro, esses, sem que recordações ou remorsos perturbassem as horas calmas do seu viver, nem suspeitando que mais de trezentos annos depois, futuros historiadores fossem projectar na sua mocidade fócos de luz artificial para refazer a historia, tiveram numerosa prole.

D’elles nasceu, além do 1.º Duque de Villa Real, aquella gentillissima Juliana, cujo encanto, como veremos no capitulo seguinte, tambem viria a ser causa de episodios ferteis em scenas dramaticas.

D. Brites vendo crescer a filha herdeira da sua belleza, pensaria talvez, com prophetico e penoso alvoroço, que nem sempre a graça e a formosura são dotes invejaveis, porque toda a superioridade, seja ella qual fôr, é sempre o alvo dilecto da malicia humana.

UM ROMANCE NA CÔRTE DE D. JOÃO III


SUMMARIO

Prisão do Barão da Alvito—O heroe da aventura romantica—A filha de Brites de Lara—O romance—Entrevista nocturna—Evasão por uma janella—Quem era a verdadeira heroina?—D. Juliana defende-se—Condemnação de D. João Lobo—O Duque de Aveiro—O casamento—Epilogo.

Estava a Côrte em Santarem, nos fins do anno de 1546, quando occorreu um acontecimento extranho, que excitou vivamente as curiosidades mundanaes.