Effectivamente, soube navegar nas revoltas aguas da Côrte do Rei terrivel, e nas mais amenas, mas tambem perigosas da de El-Rei D. Manoel. Poeta e namorado, fez versos a varias senhoras, entre as quaes D. Filippa de Abreu.
Na farça do Velho da Horta, representada por Gil Vicente em 1512, vem elle assim citado na ladainha:
«Oh Santo Barão d’Alvito
Seraphim do deus Cupido
Consolai o velho afflicto.»
A qualidade da pessoa, a importancia dos que se lhe dirigiam, e o cuidado com que Garcia de Resende compilou as producções dos versejadores palacianos, fez com que elle ficasse perante a posteridade notado por um incidente burlesco, aliás vulgar na misera humanidade, mas que nem sempre tem como actor um Védor da Fazenda, como chronista um Conde de Vimioso, e como reporter um Garcia de Resende.
Fôra o caso que n’uma jornada de Almeirim para Lisbôa... Deixemos, porém, fallar o Cancioneiro, que diz:
«Trouas que fez o Conde (de Vimioso) ao Barão (d’Alvito) porque vindo com el rrey d’Almeyrim para Lixbôa em hum batel, se lhe destemperou o estamago, e sahyo em uma cirvilha, a fazer seus feytos em huma lezira:
«Abaixo de Escaropym
através de Saluaterra
O Barão sahyo em terra
Quanto trouxe d’Almeyrim.»
e continúa relatando carnavalescamente o comico incidente, em versos que não eram destinados a mais, que a uma innocente brincadeira entre parentes. Não são porém, só as cantigas de escarnho do cancioneiro que o tornam memorado. A maneira como se houve no modo de apaziguar Lisbôa, quando El-Rei D. Manoel aqui o mandou para pacificar a populaça, excitada a matar judeus na celebre sangueira de 1506, dá mostra do grande valor d’aquelle que João Rodrigues de Sá mencionou assim:
«O dyno de ser escrito
por quem lhe dê seu louvor,
Barão, d’Alvito senhor
e Villa nova d’Alvito».