Um dia quando estava fazendo a barba para ir beijar a mão a El-Rei, que o fizera Conde, morreu de uma apoplexia.
Seu filho foi D. Rodrigo, o 3.º Barão, aquelle que foi preso por ordem de D. João III como dissemos no começo d’esta narrativa.
Era Vedor de Fazenda, como quem diz, Ministro das Finanças.
Este logar, de grande importancia, pelas dependencias que tinha, grangeou-lhe numerosos amigos, mas, como sempre acontece, ainda mais adversarios e malquerentes. Uns gabavam o seu engenho, revelado em versos de bôa factura, como aquelles dirigidos a D. Beatriz de Vilhena, ou a satyra ás Damas do Paço, «que tinham feito um rol dos homens que havia para casar e entre elles alguns mais que sexagenarios.»
Exaltavam tambem a fórma como se desempenhára da missão de que o incumbira El-Rei D. João III, quando o enviou á Côrte de Carlos V, por occasião da morte da Imperatriz.
Os seus inimigos, porém, não lhe poupavam remoques, chegando até a accusal-o de não ser indifferente ás offertas com que as partes tentavam corrompel-o. D’esta maledicencia faziam-se écho varias boccas, mesmo entre as dos seus mais chegados. Assim o revela Suppico, que em um dos seus Apophthegmas nos conta o seguinte:
«Praticavam certos fidalgos, presente El-Rei D. João III, em fidalguias antigas, e avoengos passados. Entrou n’este tempo D. João de Menezes, e disse Dom Rodrigo Lobo, Barão de Alvito: Aqui vem D. João, que sabe muito dos passados. Respondeu-lhe: Dos passados não sei nada: agora dos presentes da vossa casa sei muito. Era notado o Barão de aceitar».
Se é verdadeira a anecdota de Suppico aquelle trocadilho com a palavra presente devia soar menos bem aos ouvidos de Dom Rodrigo, tanto mais que o caso se passava na presença do Rei, cujo valimento podia ser abalado.
Sel-o-hia effectivamente? E a ordem de prisão com pretexto ou motivo na aventura de seu filho, proviria da quebra do agrado régio, e diminuição de confiança? É o que vamos ver.