Mas o que fizera o rapaz?
Apaixonára-se pela formosa D. Juliana, filha dos Marquezes de Villa Real.
Era por todos os motivos uma noiva appetecivel.
O bisavô, D. Pedro de Menezes, primo do Rei, fora 3.º Conde de Villa Real, 7.º Conde de Ourem, e casára em 1462 com D. Beatriz, filha do Duque de Bragança, D. Fernando. Nada menos!
Quando D. Pedro foi nomeado Governador de Ceuta, tendo apenas vinte annos, alguns arguiram esta eleição pela sua pouca edade: mas o Rei atalhára:
«Os filhos da casa de Villa Real já nascem emplumados.»
D. Juliana, portanto, nascera emplumada. E se considerarmos que, além da alta hierarchia, tinha dotes de belleza notavel, comprehende-se que o moço D. João Lobo, filho do Barão, levantasse os olhos para a orgulhosa patricia.
Esquiva? Talvez! Mas o apaixonado rapaz, além de confiar em si, presumia ser attendido, visto que ia recebendo cartas de inilludivel e terna acquiescencia aos seus emprehendimentos.
N’esse tempo não era muito facil estabelecer um commercio amoroso entre gente da Côrte, como fôra pouco antes, quando a mocidade alegre se reunia em festas e serões. Não quer isto dizer que os não houvesse já n’essa occasião, e até com esplendor. Umas vezes no Paço, outras no palacio de D. Duarte, e dos outros Infantes, algumas vezes tambem nas residencias dos Condes de Linhares, dos Condes de Vimioso, dos Condes de Redondo, reunia-se ainda por este tempo a nata da aristocracia portugueza em tertulias de requintada intellectualidade. Nos Paços da Ribeira, de Almeirim e Coimbra representaram-se então muitos dos autos do irreverente Gil, e foi perante D. João III que o frade ribaldo Ribeiro Chiado poz em scena o seu—Auto da natural invençam. Foi no pateo de Estacio da Fonseca, com assistencia escolhida, que se representou o memoravel—Auto de El-Rei Seleuco—do moço Luiz de Camões, que tanto deu que fallar. Mas em todas estas diversões respirava-se um ambiente sisudo e grave. Na Côrte dançava-se, sim, mas somente a arrastada pavana e a ceremoniosa galharda. E a Rainha D. Catharina, assim como desterrára dos serões os bailes pulados, era tambem inexoravel no que dizia respeito a galanteios, aventuras amorosas, e casos de paixão ardente.
Por isso nas assembléas do Paço, de onde a alegria ia fugindo, e cada vez mais a rigorosa etiqueta imperava, não era facil a D. João Lobo encontrar a linda Juliana de Lara, a quem de certo, se fosse como dantes, não deixaria de dirigir trovas de louvor, do mesmo modo que a outras haviam feito seu pae, seu avô e todos os Silveiras, seus proximos parentes e afamados poetas palacianos.