O caso era grave. Tanto mais que D. João Lobo, interrogado, affirmou ser já casado com ella.

Ora, (e aqui complica-se o enredo,) á nobre heroina d’este romance havia El-Rei já destinado outro casamento, sem contudo ainda ter dado d’isso conhecimento ao interessado.

Tratava-se de a unir ao Duque de Aveiro, D. João de Lancastre, filho do Senhor D. Jorge e, portanto, neto de El-Rei D. João II.

Dava-se pois uma circumstancia curiosa. Este Duque de Aveiro fôra aquelle que, sendo ainda Marquez de Torres Novas, declarára ter clandestinamente casado com a filha do Conde de Marialva promettida ao Infante D. Fernando, irmão de D. João III.

O Destino tem ás vezes caprichos curiosos! O Acaso, nas phantasiosas curvas da sua acção mysteriosa, levava agora D. João Lobo a representar para com o Duque de Aveiro o mesmo papel, que este havia desempenhado com relação ao Infante D. Fernando.

Teria D. João III aproveitado as circumstancias para applicar a pena de Talião ao Duque, que em tempo se oppuzera ao casamento de seu irmão, impondo-lhe agora uma noiva que outro reclamava?

Não é provavel. Os factos têm uma explicação natural e simples.

Da parte de D. João Lobo havia uma paixão amorosa e isso, se não torna legitimas, faz no entanto perdoar as maiores loucuras.

Sem que tenhamos procuração d’esse romanesco fidalgo para lhe desaggravar a memoria adduziremos no entretanto, algumas attenuantes á leviandade de architectar a comedia da janella arrombada, e de se declarar casado com a innocente filha da Marqueza de Villa Real.

Recebera cartas d’ella, allegava o rapaz, em sua defesa, e essas cartas autorisavam-n’o a entrar em casa da sua noiva, ou, para melhor dizer, de sua mulher.