A declaração do casamento clandestino era expediente muito usado n’aquelles tempos para o conseguimento do fim desejado, sem que o caso tivesse caracter de gravidade, que hoje teria para qualquer das partes. D. Pedro I affiançou ter casado clandestinamente com D. Ignez de Castro. O Rei D. Fernando assim quiz casar com D. Leonor Telles. O Marquez de Torres Novas agora Duque de Aveiro (este que D. João III destinava a D. Juliana) oppuzera-se ao casamento de D. Guiomar Coutinho allegando que com ella era casado.
Então?
Além d’estes exemplos, e superior a todos, o desvairamento sentimental do moço Alvito merecia talvez uma absolvição.
Mas El-Rei D. João III não o entendeu assim. As intenções do rapazelho contrariavam-n’o.
Os desposorios clandestinos não lhe agradavam. Estes «casamentos a furtos» tão vulgares no seculo XVI, eram validos, segundo as constituições do Arcebispado de Lisboa de 1537 sendo o homem de 14 annos e a mulher de 12.
Mas ia-se d’elles abusando, com manifesto prejuizo da boa ordem. E quantas vezes se simulavam, ou se inventavam! Este era menos que provavel ter-se realisado. E além d’isso vinha prejudicar planos assentes, pelos quaes se resolvêra dar um premio de consolação ao Duque de Aveiro, que se retirara amuado para Setubal, porque pretendendo casar com uma filha do Duque de Bragança, D. Jayme, e casar tambem sua irmã, D. Helena, com o Duque de Barcellos, fôra-lhe isso negado. Causara-lhe essa recusa manifesto descontentamento pois andava sempre emprehendendo «em que a grandeza da sua casa não fosse assombrada da de Bragança de que sempre viveu com emulação, trabalhando por estabelecer entre ellas equilibrio.» Ora, não era muito facil achar compensação para o casamento a que aspirava. Só se se fosse buscar á casa de Villa Real, parente de El-Rei e dos Braganças. Estava por isso indicada D. Juliana, e assim o havia decidido D. João III, quando rebentou o episodio de D. João Lobo e se espalhou a fama da sua aventura nocturna, com arrombamento da janella, e a descida subrepticia com as vestes na mão...
Cumpria tomar providencias rapidas. A primeira a que se procedeu foi á prisão do velho Barão de Alvito, e ao seu encerramento no Castello de Soure. Parece a repetição da fabula do Lobo e do Cordeiro; com a variante de que aqui o Cordeiro era Lobo, e em vez de ser Filho era Pae de quem assim perturbava as aguas limpidas da Côrte...
Mas porque mandava o soberano prender assim o pae do delinquente?
O Sr. Teophilo Braga, fallando de passagem n’este poeta palaciano, aproveita logo a occasião para dar uma roda de inepto ao Rei dizendo: «D. João III, como estupido, mandou o Barão D. Rodrigo Lobo preso para o Castello de Soure».