Existe, porem, uma carta, do Barão dirigida a El-Rei, muito comprida (transcripta, bem como alguns outros documentos relativos a este caso, pelo Sr. Anselmo Braamcamp Freire no livro terceiro dos Brazões da Salla de Cintra.) que nos indica os motivos que imperariam no animo do monarcha para assim proceder. Por este documento se vê que se dizia que o Barão, pae, auxiliava o filho na sua empreza; e que tendo-lhe El-Rei recomendado que o vigiasse não o fizera devidamente.

Parece que se dizia tambem que por ter alliados na casa da Marqueza, dera um officio rendoso a um creado de D. Leonor de Noronha tia de D. Juliana: e que dava de comer a moços de casa da Marqueza com o intuito evidente de os subornar.

A tudo isto responde o Barão D. Rodrigo, com allegações confusamente expostas mas que constituem uma defeza clara. Falla na sua idade de 52 annos, nos 21 durante os quaes foi Vedor da Fazenda o que lhe acarretara inimigos, seus accusadores agora.

Brada que a primeira mercê a cabo de tantos serviços prestados, não deveria ser pagar assim muitos annos innocencios. Insinúa que o casamento com D. Juliana não era desegual, visto que «fidalguia eu sou contente da que meus filhos e eu temos»; e accrescenta, com mais basofia que sinceridade, a affirmação de «que se me D. Nuno Alvares (tio de D. Juliana) pedisse meu filho para a sua sobrinha que lh’o não dera.»

A carta onde, a par d’esta fanfarronada, o Barão atira algumas biscas a D. Nuno Alvares, foi recebida por El-Rei ainda sob a impressão dos acontecimentos.

Metteu-a na boceta, e, longe de mandar soltar o pae, deu ordem para que o filho fosse tambem preso e se procedesse á devaça e julgamento.

Andava o Rei mal humorado porque n’essa occasião foi-lhe entregue um papel, sem subscripto, que se dizia ser assignado por D. Juliana, e todo com lettra d’ella, declarando ser casada!

Agora o caso tornava-se mais serio, visto ser a propria interessada quem fazia esta affirmação.

Ella, porém, informada do enredo que se urdia em volta da sua pessoa, e sentindo-se alvejada pela maledicencia de uns, pelas settas de escarneo dos outros, e pelas reticencias no sentir de muitos, mandou pedir a El-Rei que fizesse justiça, ordenando uma rigorosa investigação para aclarar tão melindroso caso.

O Monarcha promptamente accedeu.