O borborinho malevolo levantado pela bisbilhotice acerca d’estes casos indiscretos ia alastrando, quando El-Rei nomeou dois Desembargadores do Paço e do Conselho para juntamente com o Corregedor da Côrte fazer «todas as diligencias, exames e inquirições per que se a verdade do dito caso podesse bem saber».

N’uma manhã d’esse inverno de 1546, á porta do palacio dos Marquezes de Villa Real, em Santarem, apeavam-se das pacificas mulas, em que vinham montados, os magistrados encarregados por El-Rei de interrogar a nobre donzella D. Juliana.

A Justiça em todos os tempos se tem revestido com trajes de grande solemnidade, e com espectaculosa ostentação para impôr o seu austero prestigio e inspirar respeito no desempenho das suas funcções.

Se ainda hoje, nos nossos democraticos pretorios, o juiz, o delegado, e o proprio official de diligencias, envergam com certa gravidade a béca e a volta tradicionaes, para se proceder ao julgamento de qualquer rufião da Alfama; se a robe rouge ainda veste pomposamente o magistrado do Palais de Justice que manda para os carceres de Paris qualquer apache de Montmartre; se na Royal Court of Justice o Presidente encaixa com sisudez a peruca do seculo XVIII para applicar alguns dias de hard-labour aos malandrins do Whitechapel, com que cerimoniosa pompa se apresentariam as Justiças do muito alto e muito poderoso Rei o Senhor D. João III para procederem ao interrogatorio da nobre filha dos Marquezes de Villa Real, reclamada como sua mulher pelo filho do Védor da Fazenda!

Com caras graves, vestes severas e empunhando com circumspecção as varas symbolicas, attributo do officio, os magistrados subiram as escadas, conduzidos pelo mordomo da casa, que os introduziu no salão.

Alli a velha Marqueza, seu filho o moço D. Miguel, e talvez tambem o tio D. Nuno Alvares aguardavam os Desembargadores, que iam inquirir sobre a veracidade do escripto, que fôra apresentado a El-Rei como sendo assignado por D. Juliana.

Esta, de pé, junto a uma credencia, sobre a qual jaziam, n’uma encadernação sobria e rica, os Santos Evangelhos, esperava, levemente arrogante, o Corregedor da Côrte e os seus companheiros, que se curvaram reverentes ao entrarem. Vestida de negro, com simplicidade, apresentava como unico adorno uma cruz de ouro, que lhe pendia do pescoço, presa por um grilhão.

A cabeça emergia airosa da alta golinha. Uma ligeira nuvem de tristeza attenuava a altivez e desdem da physionomia, denunciadora de nobre raça.

Sem emphase, mas com firmeza, dirigiu-se ao Corregedor da Côrte, apresentando-lhe um papel em que escrevera a sua defesa. E para que não se puzesse em duvida tel-o escripto por sua mão, repetiu por palavras o que n’elle exarara.

Os dedos corriam-lhe nervosos na cadeia de oiro, mas a voz era serena, segura a dicção, e cada phrase soava sonoramente na vasta quadra em que a scena se ia passando.