«Peço digam a El-Rei nosso Senhor, que os mandou cá, que lhe beijarei as mãos por se lembrar de minha orfandade e desamparo. Se meu pae, que morreu em seu serviço, vivera agora, não se houvera este rapaz (e sublinhava com ligeiro desprezo as palavras este rapaz) de atrever-se a fallar em mim, levantando este falso testemunho. Sua Alteza (era o tratamento que ao Rei se dava ainda) ha de lembrar-se que sou bisneta do Duque D. Diogo, seu tio, e filha e neta dos mais leaes vassallos que Sua Alteza tem tido. Cumpre-lhe, portanto, dar o castigo que tão grave caso merece, para que em toda a parte se saiba a justiça que Sua Alteza mandou fazer. E para que n’isto sejaes mais certos, a vós, senhores, como a justiças de Sua Alteza, juro n’esta Vera Cruz que tenho ao pescoço, que lhes amostro (e com a mão alva e esguia elevava a cruz á altura dos olhos dos homens de lei, e n’ella punha os beiços respeitosamente) e a estes Santos Evangelhos em que ponho as mãos, que isto foi o mór falso testemunho que se nunca levantou.»
Depois, já menos solemnemente, mas com a mesma firmeza, accrescentou:
—«Nunca me passou pelo pensamento que este homem isto cuidara, nem nunca por nenhuma pessoa, mulher nem homem, nem moço, nem menino me foi dado recado seu, nem carta sua, nem nunca vi lettra sua, nem nunca pelo pensamento me passou que com outro homem podia casar senão com o Duque de Aveiro.»
Como podia restar ainda alguma duvida, pois se havia fallado em cartas d’ella, promptificava-se a, presente El-Rei, escrever e fazer a sua assignatura.
Concluindo, dizia:
—«E peço a Sua Alteza, por quanto assim ha cartas falsas feitas em meu nome, queira que perante elle escreva. E porque eu fazia outro signal (ou assignatura), antes de agora, e por fazer má lettra, me ensinava a escrever o Dr. Manoel Vaz, mestre do Marquez meu irmão, e porque dantes eu fazia um Y grego no signal (Julyana ou Yuliana?) e agora faço um grande, porei aqui ambos os signaes.»
E escrevendo no papel que era destinado a El-Rei as duas assignaturas em presença dos Desembargadores, prestou de novo juramento e entregou-lhes o escripto.
O tom, a segurança de si propria, a fé com que jurara, o grande ar com que representára esta scena, davam um cunho de sinceridade ás suas affirmações. Não podia mentir quem fallava d’esta maneira. Assim o entenderam os magistrados que se retiraram recuando, e, d’isso convencidos, desceram a escada. Depois, bifurcando-se nas sellas, esporearam as anafadas azemulas em direcção ao Paço.
Não se fez esperar largo tempo a sentença que reza pouco mais ou menos assim: