D. João Lobo foi Vedor da Fazenda com agrado da Rainha Regente.

E o Duque de Aveiro desempenhou honrosas, difficeis, e ostentosas missões. Entre outras a da sua ida a Castela em 1552, com notavel pompa, a tomar entrega da Princeza D. Joanna, que veiu para casar com o Principe herdeiro, e que havia de ser a mãe de D. Sebastião. Para avaliar a grandeza d’essa embaixada basta dizer que, além de vinte parentes, todos com as suas comitivas, o Duque levava quinhentos homens de cavallo, oitenta alabardelos da sua guarda, e dois arautos, todos vestidos de sua libré roxa, amarella, e branca; e era seguido por cincoenta azemolas de bagagem.

Era opulenta a sua casa, era faustosa e intellectual a existencia do erudito fidalgo. E a residencia, assim como as dos Braganças, Vimiosos Borbas e Redondos, era frequentada pelos bons engenhos, que deixaram rasto notavel na litteratura portugueza.

Alli se encontravam o cerimonioso Caminha, o namorado Lopes Leitão, Francisco de Moraes, autor do «Palmeirim de Inglaterra», o Doutor Antonio Ferreira e, fulgurante entre os maiores—Camões, que mantinha com o Duque estreitas relações de espirito.

Da sua quasi intimidade dá-nos amostra a anecdota, referida por Juromenha quando conta a vida do Poeta.

«Indo o Duque de Aveiro (diz o biographo) ouvir missa a Nossa Senhora do Amparo, ahi encontrou o Poeta, e perguntando-lhe o que queria da sua mesa respondeu-lhe logo que bastava que lhe mandasse uma gallinha: esqueceu-se o Duque, ou fingio esquecer-se, e, depois de haver jantado, quando já não havia outra cousa, lhe mandou uma peça de carneiro, e o Poeta pelo mesmo creado lhe respondeu:

«Já eu vi a taverneiro
Vender vacca por carneiro,
Mas não vi, por vida minha,
Vender vacca por gallinha
Senão ao Duque de Aveiro».

Não pareça esta anecdota indicar parazitismo deprimente por parte de Camões, nem desdem ou falta de consideração do Duque, mas antes um despretencioso commercio de estima.

Elle proprio Duque de uma vez quando El-Rei o enviou á raia da Hespanha buscar a Princeza, e tendo n’essa occasião recebido de Setubal um solho, mandou de presente ao monarcha o saboroso peixe dizendo: «Que folgaria que soubesse tão bem a Sua Alteza como a elle lhe sabia a arraya de que lhe fizera mercê».

Da Duqueza pouco sabemos depois que casou, senão que manteve a linha orgulhosa e altiva que desde tamanina revelou. Mostra-o a insistencia com que, conversando um dia com o Duque de Bragança, D. Theodosio, lhe ia dando no decorrer da palestra o tratamento de «Vossa Senhoria».