Nas ruas passa a cavallo, bello, sobre-humano, fulvo como um archanjo, entre os clamores, os gritos, as preces, e a ternura do povo que o acclama, El-Rei D. Sebastião em caminho dos galeões que o hão de levar á vizinha Africa.

Com o Rei vae a fina flôr da gente portugueza. Sedas, velludos, télas de ouro e prata cobrem os corpos elegantes e esforçados. Nas cabeças, levemente embriagadas pela ambição de gloria, as plumas das gorras presas por firmaes de brilhantes, tremulam ao sabor da aragem. Os cavallos mordendo freios de ouro, são sellados com os mais ricos arnezes, e nos xaireis levam bordados os escudos da melhor nobreza. As esporas que lhes tocam de leve o flanco são tambem de ouro, assim como os estribos em que os cavalleiros apoiam os pés. É o caminhar de um exercito em festa, sacudido pela febre da conquista.

Entre os que o compõem dois, e dos mais graduados, nos interessam agora.

Um já começa a branquear, mas tem vigor no aspecto; e no olhar decisão e energia.

É D. João Lobo, Barão de Alvito que vae seguindo com a vista o moço Duque de Aveiro, filho da formosa D. Juliana, aquella que, trinta annos antes, tanto o enfeitiçara, e pela qual se ia perdendo.

Este, gentil de apparencia e seguido de numerosa companhia demonstra já o ardor exhuberante com que vae bater-se.

Quando em 4 de Agosto nos areaes de Alcacer Kibir, se deu a grande batalha, ambos foram heroicos no morrer.

O Barão com a experiencia da idade e a agudeza do engenho quando sentiu inevitavel a catastrophe, pela allucinação de El-Rei D. Sebastião, volta-se para Frei João da Silva gritando: «Por que não havemos nós de prender este homem?»

—«É tarde!» respondeu o frade.

—«Pois se é tarde, redarguio o Barão de Alvito, rezemos pelo Rei, pelo Reino, e pelos Vassallos.»