Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores gestos.
Vou dar-vos alguns exemplos.
Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos selvagens, tanto de Tapuitapera como da Ilha, quiz recolher-me para meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram.
Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?
Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os.
Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros ygneém Tupan «falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava.
Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar e de me procurarem.
Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho no tratado dos Apophtegmas Laconicos, «quem quizer ganhar a amisade dos homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos» isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras.
Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo.