—Betty, disse eu, deita-te. Eu estou bem. Vae…

Ella saiu, chorando. O quarto estava mal allumiado. Eu via, fóra, as ramagens do jardim, recortando-se n'um relevo negro sobre o pallido ceu, cheio da lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciencia e sem vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em cousas alheias aos interesses da minha dôr: lembrava-me a fórma d'um vestido que eu tinha desenhado para a Aline.

Por fim ergui-me, passeei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me á consciencia e á verdade das minhas afflicções. Arranquei a folha d'uma carteira, e escrevi a lapis tumultuosamente: «Tem rasão, tem rasão. Espero-o ámanhã ás 10 horas da noite na casa… Até lá não lhe direi que o amo; só lá lhe direi o que soffro.»

Eu mesma saí ao corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, allumiada por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e indiscreto, e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe:

—Leve esse bilhete já… Vá n'uma carruagem.

E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá.

Vim sentar-me á janella do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o luar, as grandes sombras, tinham um repouso romantico e triste. Lentamente, a minha desgraça começou apparecendo-me inteira, nitida, em pormenores, n'uma grande synthese, como se fosse um mappa.

Eu era trahida! Aos vinte e tres annos, com todas as intelligencias da paixão, com todos os delicados prestigios do luxo, era trahida, era trahida! Senti então pela primeira vez a presença do ciume, esse personagem tão temido, tão cantado nas epopéas, tão arrastado pela rampa do theatro, tão conhecido da policia correccional, tão cruel, tão ridiculo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e mordente como um corrosivo; a sua argumentação miuda, jesuitica, implacavel, sanguinaria: todo o seu processo d'acção, que torna de repente o coração mais puro tão immundo como a toca d'uma fera.

Senti o mais cruel dos ciumes todos; aquelle que se define, que diz um nome, que desenha um perfil, que nol-o mostra, o nosso inimigo, que nos enche as mãos d'armas, que nos obriga a avançar para elle. Eu sentia no meu ciume um ponto fixo—ella. Era ella, a outra! Lembrava-me confusamente: tinha cabellos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de Longchamps. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar n'elle o quer que fosse, que promettia um destino pacifico. Que secreto encanto se irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a intelligencia? Era a sciencia das cousas do amor?… Como eu ardia por a conhecer! E não sabia nada d'ella senão que era irlandeza, e que se chamava Miss Shorn!

Ah sim, sabia outra cousa—que elle a amava!