Conhecel-a! conhecel-a! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! De certo! Ella devia pôr n'ellas toda a sua intima personalidade. Era loira, era ingleza, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem sobresaltos, e sem inspirações da paixão; nas suas cartas provavelmente desfiava o seu coração. Eu conhecel-a-hia bem, se as lesse! Eu saberia o estado de espirito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas d'ella. Devia lel-as! Era necessario pedil-as, roubal-as, compral-as, eu sei! Mas era necessario lel-as!

Para pensar assim eu nenhuma prova tinha de que elle recebia cartas d'ella, mas tinha a certeza que ellas existiam e que o seu coração estava cheio d'ellas…

Quiz serenar, pacificar-me, dormir.

Deitei-me. O meu pobre cerebro estava n'uma vibração tempestuosa; era como n'uma tormenta em que veem á superficie da mesma vaga os destroços d'um naufragio e as flores da alga; no meu espirito revolto, surgiam no mesmo redemoinho, as cousas graves, e as recordações futeis, as minhas dôres e as minhas phantasias, os desastres do meu amor, e ditos de operas comicas! Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.

—Betty! não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. Quero ámanhã todas as minhas faculdades em equilibrio. Se não durmo estou perdida, endoideço… Dá-me alguma cousa.

—Mas o quê, minha senhora?

—Olha, dá-me aquella bebida que davam á mamã nas insomnias, a que tu tomas quando tens dôres… Tens?

—Quer opio?

—Não sei! agua opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me disse…

—Minha querida menina, eu tenho opio. Uma gota, n'um copo de agua. Eu sei? Talvez lhe faça mal!