—Dá-m'a, o doutor disse-m'o hontem. Dá, depressa.
Bebi. Era agua opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e lembro-me que durante o somno sentia-me encaminhar incessantemente, n'um movimento perpetuo que affectava todas as fórmas; ora lento e pacifico, como um passeio sob uma alameda; ora rapido, volteado, e era a walsa de Gounod que eu dançava; ora solemne e melancholico, e era um enterro que eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era no inverno, e eu patinava sobre a neve.
Acordei de manhã, serena, e decidida. Mandei pôr um coupé. Saí. Fiz parar á porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa manhã, que Rytmel estava com elle em Bellas. Subi. Appareceu um criado portuguez, Luis, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, discreto pelo medo.
—Mr. Rytmel!
—Saiu, senhora condessa.
—Jacques?
—Foi com elle, senhora condessa.
Jacques era um criado antigo de Rytmel.
—Luis, leva-me ao quarto de mr. Rytmel.
Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras. Nenhumas cartas, apenas cartas indifferentes. Irritada, abri as commodas, espalhei as roupas, procurei nos bahus, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenetica, desesperada, infame!