Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.
—Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.
—Qual?
—É que não tivesse deixado signaes o arsenico…
—Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.
Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.
—Sabe tudo, disse eu ao mascarado.
—Foi elle, confirmou o mascarado convencido.
Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:
—A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que vêr n'este negócio.