E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo aninhava as almas.
Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.
Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:
Os teus olhos, bem amada,
São duas noites cerradas.
Mas os labios são de luz.
Lá se cantam alvoradas.
Os teus seios, minha graça,
São duas portas de cêra.
Fôra a minha boca um sol,
Como elle as derretêra!
Os teus labios, flôr de carne,
São portas do paraizo:
E o banquinho de S. Pedro
É no teu dente do sizo.
Queria ter uma camisa
D'um tecido bem fiado,
Feita do todos os ais
Que o teu peito já tem dado.
Quando nos fôrmos casar,
Canta missa o rouxinol.
E o teu vestido de noiva
Será tecido de sol!
A benção nos deitará
Algum antigo carvalho!
E por enfeites de boda
Teremos gottas de orvalho!
E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore. Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal. Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.
Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade dos nectares olympicos.
O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:
—A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, das suas mãos ao seu collo?
E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e metallicas:
Quem depenna um rouxinol
E rasga uma triste flôr,
Mostra que dentro do peito
Só tem farrapos d'amor.