E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda as aves, as flôres e Jesus!
—A toutinegra voou—disse jovialmente.
E indo para Jusel:
—É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel?
Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.
—No meu tempo, senhor Suspiro,—disse o homem dos olhos negros, cruzando lentamente os braços—já havia aqui duas espadas, a fazer rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres, menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!
Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, desprendidos do seu peito.
O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:
—Bacharel Ternura—disse—ha aqui perto um logar onde os goivos nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.—Era o pagem.—É necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer, bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado, branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em duello secreto, armas honradas!
E batendo heroicamente nos copos da espada: