As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:

—Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era n'um campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos. E diziam uns:—Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que choram no coração d'aquella mulher.—Outros diziam:—São as tristezas dos minnesingers errantes que alli soluçam.—Outros diziam:—Sim, aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli do exilio.—E então eu adiantei-me e disse:—Sim, sim, aquelle côro é de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que gemem.—Que sonho tão mau, tão mau!

—Porque estás tu—dizia ella—todos os dias encostado ao pilar, com as mãos quasi postas?

—Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.

Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite.

—Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?—dizia Jusel.—Nem eu sei!

E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua alma, sonorosamente.

E inclinando o corpo:

—Conheces meu pae?—disse ella.

—Não. Que importa?