—Ai, se tu soubesses!...
—Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta paixão toda deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não? Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o cabello. Será a nossa estola.
E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos, transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes dos dois nomes enlaçados—J. e M.
—É o nosso noivado!—disse elle.—O ceu atira-nos os astros, confeitos de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas, tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!
E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu coração, ás suas confidencias, aos seus desejos, toda a vaga e immensa bondade da religião da Graça.
E as suas almas fallavam, cheias de mysterio:
—Vês tu?—dizia a alma d'ella.—Quando te vejo, parece que Deus diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!
—O meu coração—suspirava a alma d'elle—é uma concha. O teu amor é o mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas, se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do teu amor!
—Olha—dizia a alma d'ella—eu sou como um campo. Tenho arvores e relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que ha em mim de paixão é relva para tu pisares!
—Sabes tu?—dizia a alma d'elle.—No ceu ha uma floresta invisivel de que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir descendo: quando cairás tu nos meus braços?...