E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperança a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o ceu, unidas e immensas—para Deus passar por cima!
E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.
O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo:
—Onde queres ser enforcado, villão?
—Pae, pae!—gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas, enlaçando o corpo do velho.—Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe, alli está. Veja. Alli, na imagem!...
—O que?...
—Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!
O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se tinham refugiado no seio de Christo.
—Raspa, meu velho, que isso é marfim!—gritou o homem dos olhos negros.
O velho foi para a imagem com a faca do cinturão. Tremia. Ia arrancar as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus!