A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.

O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.

O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.

Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.

[TILIA.]

D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal portuense Diario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:

«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.

Ah! como são bellas as tilias portuenses!

Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilette pompadour, na Praça de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra o meio, mesmo em face do domus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.

Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.

Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.

Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.

Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.

Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.

Ah! como eu amo as tilias».

[LEITUGA.]

A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.

Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel dissabôr.