—É cego por ele—respondeu Dôres.

—É natural—acrescentou a sr.ª Brigida—Como é o primeiro e está tão lindo... Santo Antonio o abençôe.

—Senhora Brigida—respondeu Dôres, pegando no menino,—abençoando-o Deus, é quanto basta.

—Filha, e os santos tambem, e porque não?

—É que—disse a filha do carpinteiro—Dôres tem presente o rifão que diz: O que Deus não quer, santos não podem; não é verdade?

—Pois olhe—disse Brigida,—eu tenho muita fé em Santo Antonio, porque é um santo de muita virtude, ou ele não fosse chamado Advogado dos impossiveis. Sem ir mais longe, outro dia perdi uma nota do banco de 100 pesetas; imediatamente acendi uma véla a Santo Antonio que tinha na sala, rezei-lhe um Padre Nosso, e em seguida, remexendo bem na comoda, no terceiro gavetão, onde eu não costumo guardar dinheiro, encontrei a nota; desde então não ha de faltar ao santo, todos os dias, uma lamparina acesa. Já vês, pois, que...

—Pois eu não vejo nisso outra coisa senão que com o andar do tempo perderá realmente as 100 pesetas, gastando-as em azeite com o santo. Demais, se, em logar de haver mal gasto o tempo em rezar e acender luzes ao santo, tivesse remexido bem a comoda, teria achado o seu dinheiro, pois que não estava perdido; se em vez de o ter metido na comoda, o tivesse deixado cair na rua, veria como Santo Antonio não lho traria a casa.

—Filha, és muito incredula!

—De modo nenhum, senhora Brigida, eu creio...